Melancholia

Melancolia.
do grego μελαγχολία – melagcholía; de μέλας – mélas (negro) e χολή – cholé (bílis).

and when I say we’re alone, we’re alone.

Kirsten Dunst em Melancholia de Lars von Trier

Melancholia – Lars von Trier, 2011

Sunt enim quattuor humores in homine, qui
imitanturdiversa elementa; crescunt in diversis
temporibus, regnant in diversis aetatibus. Sanguis
imitatur aerem, crescit in vere, regna in pueritia.
Cholera imitatur ignem, crescit in aestate, regnat in
adolescentia. Melancholia imitatur terram, crescit in
autumno, regnat in maturitate. Phlegma imitatur
aquam, crescit in hieme, regnat in senectute. Hi cum
nec plus nec minus iusto exuberant, viget homo.

Hipócrates alude pela primeira vez ao conceito, na chamada teoria dos quatro temperamentos ou humores corporais – sangue, fleuma, bílis branca e bílis negra – cuja preponderância corresponderia a um dos quatro temperamentos – sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Enquanto o equilíbrio dos quatro humores traduziria um estado óptimo de saúde mental e física, a predominância de um deles induziria um distúrbio mental. A melancolia seria resultado de um desequilíbrio na bílis negra, “um estado de tristeza e medo de longa duração”.

Aristóteles, por seu turno, declara que a melancolia emerge uma de interessante relação entre genialidade e loucura; através desta associação, a capacidade criativa e a melancolia estariam associadas: o homem triste é também um homem profundo. Na concepção de Aristóteles, e ao contrário da hipótese avançada por Hipócrates, os melancólicos são homens extraordinários por natureza, não por moléstia.

Na Idade Média, por influência árabe, surge a ideia de que os melancólicos seriam indivíduos nascidos sob influência de Saturno que, no corpo humano, rege o baço, sede da bílis negra. Os nascidos sob influência deste planeta seriam, tristes e sombrios, soturnos (o próprio adjectivo é uma alteração da palavra Saturno). O efeito de Saturno não se exercia, contudo, em pessoas vulgares, mas em pessoas excepcionais, mantendo-se assim a ligação aristotélica entre melancolia e genialidade. Esta associação perdurou durante o renascimento, época em que o homem melancólico era encarado como capaz de grandes feitos intelectuais e artísticos.

No século XVI, aparece pela primeira vez a palavra psicologia e cresce o interesse pelo estudo da mente. A melancolia, abordada quer por médicos quer por pensadores, permanece um conceito ambíguo. De complicada operacionalização enquanto doença física ou mental, o termo é mais propenso a dissertações filosóficas e asserções metafóricas.

No séc. XIX, com os trabalhos de Pinel, a medicina apropria-se em definitivo do estudo da loucura e dos distúrbios mentais; a loucura poderia ser sanada através de cuidados apropriados; a melancolia é incluída nestes quadros patológicos. É uma doença mental.
Na obra “Luto e Melancolia”, Freud, tentando estudar a resposta psicológica ao sentimento de perda, associa o estado de melancolia ao luto. O luto é definido como o espaço de vivência e elaboração de situações de perda e de frustração; a melancolia residiria na incapacidade para elaborar lutos e lidar com perdas. Mais ainda, enquanto na génese do processo de luto reside um acontecimento de perda efectiva, na melancolia esse sentimento de perda pode ser altamente subjectivo. De acordo com o autor, o melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto — uma extraordinária diminuição da auto-estima e um empobrecimento do ego.

Séc. XX. O termo depressão substitui, em definitivo o termo melancolia. Nos modernos manuais de classificação dos distúrbios psicológicos, que se caracterizam pela descrição dos fenómenos diagnosticados a partir da duração, intensidade e frequência dos sintomas, o termo melancolia aparece como uma subclasse da depressão, a dos distúrbios de humor.

Na prática, regressa-se hoje aos primórdios das descrições. A depressão é uma doença, enquanto que a melancolia é um temperamento, uma questão personalística. A maleita dos afectos tristes.

No filme de Lars von Trier, melancolia refere-se não apenas ao terrível planeta em iminente choque com a Terra, prenúncio assegurado do fim dos tempos, mas também ao humor da personagem central, Justine (Kirsten Dunst), uma mulher profundamente triste, que deambula num estado psíquico de depressão sem qualquer causa específica. É o exemplo acabado do génio melancólico, provocando admiração e estranheza nos que a rodeiam. Linda, mas incómoda, adorável, mas detestável. Num primeiro momento, ela batalha contra a sua própria natureza – mais do que contra os seus sintomas – num derradeiro esforço para ser feliz; ser amável, ser agradável, ser normal. Num segundo momento, ela sucumbe ao seu próprio temperamento e surge severamente deprimida.

Justine tem o seu contraponto psicológico e comportamental na irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), uma mulher equilibrada em desequilíbrio perante o catastrófico acontecimento que se avizinha. Enquanto Justine se afunda num marasmo melancólico, Claire exibe as respostas emocionais normativas: tristeza, medo, desespero.

Dizem os estudos que os deprimidos, porque as suas expectativas em relação a si próprios, aos outros e ao futuro são extremamente baixas, reagem de forma paradoxalmente positiva a acontecimentos bruscos ou traumáticos, quando comparados com indivíduos sem este diagnóstico.

Perante a aproximação do Melancolia, instala-se um sentimento de solidão cósmica, nas personagens e no espectador – a certeza de que estamos completamente sozinhos no universo – e fecha-se para Justine a tríade negativa da depressão; à visão depreciada de si mesma, junta-se uma visão negra dos outros (Earth is eavil; no one will miss it) e do destino (life is only on Earth; and not for long).

Enfim chegado o momento, Justine abraça o fim do mundo mergulhada numa estranha serenidade melancólica, ao som de Wagner, Tristão e Isolda. Com umas Hunter calçadas.

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