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“Em geral, quem não sabe dar um sentido à própria vida dispõe-se por profissão a sacrificar-se.” (Cesare Pavese)

os olhos são setas

sempre ouvi dizer que no-pain-no-gain. sim, estamos em crise, sim, temos de estar agradecidos pelo que temos. não, não temos de nos conformar com a injustiça, com um trabalho precário, com quem não nos reconhece, com quem não sabe gerir, com a incompetência de tantos que se dizem empreendedores, com falsas oportunidades, com interesses escondidos atrás de boas intenções. não. recuso-me a acordar com o pensamento “lá-vou-eu-para-aquela-sítio-ignóbil”, todas as manhãs sem falhar uma vezes sem conta, depois de ter passado a noite a sonhar com isso, porra, não. e não me venham com a conversa das responsabilidades e das obrigações, também as tenho. todos temos responsabilidades e obrigações. sejamos francos, honestos connosco em primeiro lugar, para que possamos estar prontos para lutar. tenhamos a coragem que agora é precisa para nos libertarmos do servilismo, do medo que nos querem incutir a cada anúncio, a cada notícia, para depois nos entorpecerem com as manhãs inúteis da TVI. cuidado. as promessas são de uma grande responsabilidade. mas as acções, essas, são ainda mais determinantes.

gritos que se libertam

atrás de mim virá quem bom de mim fará, a vida mostra-nos que é sempre assim, sempre assim com honrosas excepções sendo que o mundo é feito dessas excepções. corroem-me as verdades imutáveis apenas porque o seu carácter é tão cómodo para quem o faz o mundo girar. nós, que estamos no bastidores, aquele lugar onde estão as cordas que fazem abrir a cortina, que deixam voar o artista, que mudam o cenário quando está na hora de começar o próximo acto, logo nós, no sítio mais importante, no sítio onde tudo se passa porque o resultado nunca – nunca, ouviram? – seria igual sem todos, nós todos que estamos lá atrás. seremos assim tão poucos que não podemos ser tantos quanto a vontade de sermos mais? eu vi. eu vi a malta que saiu à rua. e era muita gente, muita gente aos milhares. e não foi para ir ao shopping.

vozes que se alevantam

não sei entender de política o suficiente para comentá-la. mas oiço e leio e observo e interpreto. sei de pessoas, sei. sei que estamos sempre prontos a atirar a primeira pedra e logo nos esquecemos dos nossos telhados. também sei que a nossa memória é selectiva o bastante para baralhar a cronologia, os factos, o quê? o quem? considero-me uma privilegiada. faço parte desta massa que se levanta, que se revolta contra as injustiças, o fundamentalismo, os falsos burgueses, as mentalidades pobres, os esquerdas que passam à direita e vice-versa, os quintais, os pelourinhos, o estou-me-a-cagar, já-não-me-serve, vale-tudo-para-salvar-o-meu-couro. temos andado a jogar ao Monopólio negociando com as casas dos outros e por esta altura nem sei como é que o Rossio ainda não foi vendido a um grupo chinês qualquer. é verdade que a capacidade associativa por si só não vai resolver tudo, mas as pessoas como eu e como tu estão finalmente a unir-se em volta do que é importante.

cheiros que se colam no nariz

me Tarzan, you Jane. dantes era tudo tão mais simples. dantes não havia listas de requisitos ou fórmulas definidas dos sete-passos-essenciais-para-um- primeiro-encontro-com-boas-perspectivas-de-passar-ao-segundo. gosto da palavra dantes porque me faz sentir numa outra época, como na telenovela da Gabriela que agora me traz de volta os tempos em que a minha Mãe via todos os episódios comigo sentada ao colo. o meu dantes é mais recente, de uma época em que ainda éramos romanticamente simples, afectivamente menos exigentes. talvez porque éramos mais livres. éramos mais conscientes de que a vida sem determinados riscos não sabe a viver. o amor também precisa de uma revolução de cravos.

mãos que enrolam num abraço

escolho o silêncio do mar ao longe, sentada ao teu lado num grão de areia. escolho o silêncio não porque esteja cansada da tua voz ou surda para falar mas porque estares ao meu lado é por si só a ausência de silêncio. escolho estar sentada ao teu lado enquanto remexes na areia, enquanto me espreitas de soslaio tentando interpretar-me, pensando que não te vejo mas sabendo que sim, que espreitas ao meu silêncio. escolho que não quero estar em mais lado nenhum naquele momento. naquele momento em que o mar se encontra próximo e o teu cheiro vem no vento. escolho que são estes silêncios que me acolhem num lugar que ainda não descobri. escolho ser quem sou, assim, vulnerável perante ti. escolho o desconhecido (que não és tu). escolho viver.

(a máquina da verdade)

estou distraída. a partir do momento em que o escrevo, tudo se torna mais real.

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